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A semana passada estive a trabalhar num ensaio sobre o Livro dos Cânticos, uma colecção de poesia clássica chinesa, que inclui 305 palavras cuja origem remonta a um período compreendido entre os séculos XXI e VII AC. Nessa altura, escrevi: “…A poesia na sua forma original deve encontrar-se nos cânticos… As letras ficaram registadas, embora a música e a representação que lhe estava associada tenham sido gradualmente esquecidas. Estas palavras arcaicas tornaram-se poemas, constituindo uma memória que nos transporta a sentimentos e disposições de alma que se perderam na noite dos tempos. Os poemas combatem o esquecimento: são o grito dos nossos antepassados contra o olvido.”

Pouco tempo depois Bob Dylan ganhava o Nobel da Literatura, e os protestos que esta escolha desencadeou fizeram-se ouvir de imediato. Enquanto isto, pus-me a pensar que, para os chineses, esta deliberação não foi nada surpreendente, embora receie que a minha análise não tenha nada a ver com a decisão da máquina de Estocolmo.   

Demos agora uma olhadela rápida à imagem de Dylan na China através dos média de língua inglesa. O Guardian menciona a digressão de Dylan na China em 2011. “Na semana em que Ai Weiwei, o artista e activista, foi preso, Bob Dylan teve autorização para actuar em Pequim. Ninguém sabe ao certo porque é que qualquer uma destas decisões foi tomada, mas isso também não incomodou as 6.000 pessoas que encheram a arena do Estádio dos Trabalhadores, nessa noite…”

O concerto teve lugar em Pequim e o alinhamento “seguiu à risca o programa aprovado”. Até aqui não há nada de surpreendente, porque a China é a China e o público chinês compareceu “não pela música, mas pela lenda” e Dylan “não cantou, falou”. Ou seja, “cantou” poesia. A minha análise tem pernas para andar. Bob Dylan foi/é um sábio poeta chinês.

Durante os últimos dias, vimos nos canais de língua chinesa, o povo expressar-se directa e abertamente mostrando, de forma esmagadora, o seu apoio a Bob Dylan – ao contrário do meu círculo de amigos do hemisfério ocidental.  O público chinês partiu à descoberta de Bob Dylan, artista plástico, e de Bob Dylan. romancista: não existem limites para o brilhantismo e para o talento deste homem.

Encantados com esta vitória, os chineses já sugeriram que Zhang Chu deverá ser o próximo galardoado com o Nobel da Literatura.

E aqui vai Zhang Chu 张楚, aposto que nunca tinham ouvido falar dele:

http://bit.ly/2eb1Mxl

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