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Macau não é fácil. Não é fácil para quem é de cá, não é fácil para quem chega, não é fácil para quem vai contando os anos de vida ao ritmo das edições do Grande Prémio. Ou da apresentação dos relatórios das Linhas de Acção Governativa. Presumo que as outras cidades sejam igualmente difíceis para quem vive nelas, mas acontece que não vivo nas outras cidades: é aqui que sou.
Para quem veio de fora e já conta alguns anos disto, houve um momento – ou vários – de dúvida sobre a lógica da continuidade por cá. Mas há um momento – e não vários – em que é preciso decidir, para ser possível viver em paz com quem se foi, com quem se é e com aquilo que se pretende ser. Estar aqui e noutro sítio qualquer ao mesmo tempo não dá jeito e tem efeitos extraordinariamente prejudiciais, sobretudo para a alma, que fica desasada. Que se decida onde se quer estar, hoje, mesmo que a decisão não dure mais do que as vinte e quatro horas do dia e, nas vinte e quatro horas seguintes, se faça a mala e se apanhe um barco para longe, muito longe.
As cidades são como as pessoas, porque são feitas de pessoas. E porque são feitas de pessoas, convém que as cidades tomem decisões sobre as pessoas que nelas vivem. Cidades indecisas geram cidadãos confusos, causam situações desagradáveis, porque a incerteza é chata, mói devagarinho. Cidades sem um projecto tornam-se insuportavelmente insulares, arredondam-se e fecham-se. Não têm qualquer serventia.
Macau teve um problema grave de indecisão com a transferência de administração – um dilema que, de certo modo, continua por resolver, embora atenuado pelo discurso oficial da harmonia e coisa e tal. Nos anos que se seguiram a 1999, quem cá estava e lidava com a teoria política (e com a prática política) tinha a clara sensação de não saber para onde é que tudo isto ia. A cidade. As pessoas. As pessoas na cidade. Os portugueses daqui e os portugueses que para aqui vieram.
Os bois pelos nomes: foi preciso Pequim bater o pé e inventar um desígnio que vários bons rapazes da política local não estavam dispostos a aceitar. Pequim deu um murro na mesa, deu força ao Chefe do Executivo de então e tomou-se uma decisão para a cidade: Macau ia ser um plataforma entre a China e a lusofonia, pelo que a lusofonia da terra e das pessoas era para preservar.
Todos nós sabemos que a China não precisa de Macau para chegar ao Brasil, para aterrar em Luanda ou em Cabo Verde. E todos nós sabemos também que é fraco o lado visível de mais de uma década de fórum sino-lusófono. Mas quem cá está e se lembra do quão indecisa andava a cidade no início do milénio sabe que há figuras de estilo que são muito mais do que palavras, apesar de, como figuras de estilo que são, não entrarem na contabilidade dos negócios.
Esta semana, Macau voltou a ser uma cidade virada para a lusofonia, com ministros e políticos e empresários e muita gente vinda de fora, dos países onde se fala português e do país onde se fala um chinês com diferente significado do chinês local. Li Keqiang passou por cá para recordar que as dúvidas mal resolvidas na cabeça de certos bons rapazes devem ser resolvidas quanto antes, porque Pequim inventou um projecto para Macau que vai além das fichas de jogo em dólares de Hong Kong que se atiram nos casinos da cidade.
De Portugal também veio gente: Lisboa quis trazer um primeiro-ministro para a ocasião. No meio dos discursos de circunstância, entre a retórica politicamente correcta e as intenções de aproximação à China, a ideia que muitas vezes falha a quem parte da Portela e aterra ali em Chek Lap Kok: os portugueses que aqui estão, que aqui vão sendo, interessam. E porque interessam, que se acarinhem.
Macau não é fácil e há alturas em que as decisões pessoais não bastam: é bom que quem manda na cidade e que aqueles que, mesmo ao longe, vão olhando para ela nos digam o que querem de nós, porque inventar solitariamente destinos para cidades arredondadas nunca fez bem a ninguém.

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