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Às vezes reclamamos com facilidade sobra as falhas, a incapacidade, o mau desempenho, ou pelo facto de não conseguirmos uma coisa que gatávamos de ter. É fácil cair na frustração, na rejeição e na desistência. Mas não nos devemos esquecer que não temos a pior vida do mundo e que há sempre alguém em piores condições do que nós.
Nascer, crescer, brincar, estudar, trabalhar, são as etapas essenciais dos seres humanos. São tão fáceis e comuns, contudo, para os que sofrem de deficiência congénita, a partir do momento do nascimento, crescer já acarreta imensos esforços.
A desigualdade entre pessoas ditas normais e portadores de deficiência existe em todo o mundo e Macau não escapa a essa realidade. A lentidão em aprender, a dificuldade de entrar em escolas como as outras crianças, o preconceito de outros, a pouca possibilidade de entrar no mercado de trabalho… Mas nem sempre existe apenas o lado triste.
Uma reportagem local on-line “My Own Post” revelou que a primeira turma de educação especial para as crianças com deficiência visual foi aberta na Escola Primária Luso-Chinesa Sir Robert Ho Tung, onde é permitido que alunos normais e especiais estudem juntos.
Três crianças com deficiência visual desde a nascença , com três anos de idade, foram à escola como os outros meninos no dia 1 de Setembro, o primeiro dia do novo ano lectivo. A única diferença é que eles não vêem e apenas conhecem os objectos através do toque. Mesmo assim, a inocência e a curiosidade não diminuem face à deficiência.
Apesar de ser apenas um pequeno avanço na educação com portadores de deficiências visuais, os pais parecem estar satisfeitos com a organização da escola: cada aluno especial tem uma pessoa que o acompanha no estudo, e as condições são melhores do que quando andavam na Escola Kai Chi (da Associação de Apoio aos Deficientes Mentais de Macau) em que os pais precisavam de acompanhar os filhos a todas as aulas. Agora a pressão parental também está aliviada.
Em Macau ainda não existe estimulação precoce nem treino para as crianças portadoras de deficiência visual, o que significa que as crianças com idades entre os 0 e os 3 anos não acedem a uma educação adequada. Desta forma podem vir a perder a totalidade ou parte da capacidade de aprendizagem. Há alguns casos em que mesmo tendo três anos de idade, as crianças ainda não dizem uma palavra e outros que agem como se fossem bebés de meses. Com três anos só podem estudar com outras crianças também portadoras de deficiência e não têm, por exemplo, acesso ao ensino de língua inglesa, ao contrário dos meninos “normais”.
Com esta turma inclusiva, as crianças passam a ter uma aprendizagem cognitiva em que podem, por exemplo, cantar, e fazer actividades em que não precisam da visão e que os integram com os colegas.
Sempre que vejo o esforço das pessoas com mais dificuldades digo-me a mim mesma: não temos nenhuma razão para ser preguiçosos ou desistir facilmente, porque temos muito mais quando comparados com outras pessoas.
Outro assunto que me impressionou recentemente foi o caso do fotógrafo oficial dos Jogos Olímpicos também portador de cegueira. João Maia da Silva, com 41 anos, sofreu uveíte quando tinha 28 anos e desde então não tem visão. João Maia da Silva desesperou até que começou a fotografar. Para ele, o acto de fotografar é uma oportunidade para expressar ideias e sentimentos sobre o mundo.
Nós conhecemos o mundo pelos olhos, mas para João já não é essa a forma. “Para fotografar não é preciso usar os olhos, mas sim sentir com o coração, e dessa forma conseguir boas imagens”, afirmou.
O fotógrafo, invisual, consegue tirar fotos através da audição da batida do coração, do som dos passos dos atletas e do ambiente e consegue ainda estimar distâncias.
Em chinês há um provérbio que se usa muito: “Um minuto no palco custa dez anos de trabalhos anteriores”. Para conseguir fazer isso, João tem que se esforçar muito e gastou muito tempo de modo a conseguir retomar a sua vida, para se tornar uma pessoa com um dom especial.
Ainda têm desculpas para se queixarem do azar ou da dureza da vida?

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