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Um fenómeno que acontece a quem tem filhos é começar a ver as coisas em várias dimensões. Quando um filho nasce – e sobretudo quando começa a andar –, os autores do pequeno ser ficam maiores e mais fortes, capazes de transportarem todos os quilos e preocupações do mundo, mas tornam-se também mais pequenos. Um metro de gente não vê o que um metro e sessenta ou um metro e oitenta vêem: há que flectir as pernas para se perceber o mundo que é apresentado aos descendentes.
Aqueles que decidiram contribuir de forma activa para as estatísticas demográficas ganham ainda uma particular capacidade de análise do chão que sempre pisaram e que, de um dia para o outro, passa a ter uma enorme relevância: pés grandes não caem em pequenos buracos, nem tropeçam com facilidade em pisos desnivelados; já os pés pequenos têm uma particular inclinação para ajuntamentos de água e gigantes crateras no pavimento dos passeios.
Quem decidiu multiplicar-se descobre ainda um inexplicável talento para detectar o perigo. Em Macau, esta apetência adquirida por via da parentalidade é uma canseira: o perigo está em muitos sítios quando se sai à rua acompanhado por alguém que ainda mal fala. Não é preciso ser-se especialista na matéria – os espaços públicos nesta cidade, com destaque para parques infantis e passeios, são uma miséria. Basta andar na rua com olhos de ver e com uma criança pela mão.
O Comissariado da Auditoria chegou a semelhante conclusão e decidiu puxar as orelhas ao Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais. Num relatório ontem divulgado, diz-se, de forma resumida, que há um grande número de espaços públicos de lazer que representam um risco para a segurança e para a saúde pública. Gasta-se dinheiro em parques infantis e nos equipamentos desportivos, mas há desmazelo, falta manutenção, sobra lixo. Em suma: o Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais não está a fazer o que devia para garantir as condições mínimas que estas áreas devem ter.
É difícil encontrar uma explicação para o estado em que se encontram muitos dos equipamentos públicos da cidade, pela simples e nada imaginativa razão de que o dinheiro não é um problema. Não havendo falta de recursos, a situação em que se encontram os locais frequentados essencialmente por crianças e velhinhos poderá ser justificada pelo desleixo, pela ignorância, pela falta de capacidade para a concepção deste tipo de áreas, pelo não-querer-saber.
Um fenómeno que acontece a quem tem filhos é a mudança do modo como se vive na cidade. Mudam-se os horários e os percursos, as zonas que se viam ao longe, da janela de casa, passam a ser frequentadas com muita regularidade. E constata-se, de um modo quase doloroso, que as pessoas que vivem nesta cidade têm uma enorme falta de espaço. Não há parque público, infantil ou não, que não esteja pejado de gente. Não há uma nova área de lazer que não seja rapidamente procurada por pais ciclistas, filhos em triciclos, novos e menos novos que gostam de correr, de andar, de respirar qualquer coisa que não seja o ar condicionado de casa e o cheiro dos casinos.
Ao falhar na manutenção dos equipamentos públicos, o Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais comete um pecado maior: priva grande parte da população da aproximação a uma vida mais ou menos normal. Não é preciso ser-se especialista na matéria: googlem, senhores que decidem, googlem. Vejam o que se faz lá fora e leiam, por exemplo, as estatísticas assustadoras sobre acidentes com crianças em parques infantis. Tenham cuidado: o povo é sereno e não se queixa, mas um dia destes há um azar dos grandes e alguém vos vai perguntar por que estava o baloiço enferrujado, o escorrega partido, a vedação incompleta. Descompliquem: deixem os miúdos pisar a relva, voltem a plantá-la as vezes que for necessário, porque o cimento não é amigo de joelhos e narizes de tamanho XS. Invistam: limpem os parques, comprem caixotes do lixo, espalhem-nos pela cidade; nivelem os passeios feitos à pressa em aterros feitos à pressa, lembrem-se das rampas para que os acessos estejam garantidos a cadeiras de rodas e a carrinhos de bebés. Não queiram ser terceiro-mundistas, que o termo não vos fica bem e em nada combina com os fatos escuros, as gravatas e os automóveis de motorista fardado de branco.
Modernizem-se e pensem, pensem só um bocadinho: a cidade é das pessoas e deve ser pensada para elas. A cidade é nossa.

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