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Muito se tem falado, e especialmente especulado, sobre a iminente mudança de instalações da secretaria notarial do Leal Senado, que vem funcionando há mais de meio século no Edifício da Santa Casa da Misericórdia. Penso que toda a gente terá uma opinião em relação a esse tema, e é mesmo possível que entre umas e outras a amplitude seja considerável, variando entre a relativização e indiferença da parte de alguns, até às mais elaboradas teorias da conspiração, da parte dos mais “criativos”. Mais uma vez prefiro ficar sentado na divisória, pois tal como toda a gente pouco ou nada sei das “verdadeiras razões” para a mudança do Primeiro Cartório para outras instalações. A não ser a versão oficial, claro, da própria Secretaria da tutela da Justiça, e se por um lado não existe nada que me leve a supor que as razões são outras além das económicas, por outro lado compreendo que haja quem “desconfie”. Uma vez mordidos…
Mas aí está – só sei que nada sei, ponto. A partir daqui posso conjecturar sobre tudo e mais alguma coisa, os verdadeiros porquês, quem não gosta de quem, ou quem foi o infeliz que pisou a cauda de um dos “dinossauros”, tudo e mais alguma coisa, mas para mim, só para mim, e para ficar dentro da minha cabecinha. Posso eventualmente comentar com alguém das minhas relações, numa conversa informal, ou “de café”, como lhe chama um dos nossos oráculos. Por falar nisso, no outro dia encontrei-me com uma amizade do exterior, que veio até cá em trabalho, a propósito da inauguração do mais recente mamarracho casineiro maquilhado de “civilização ocidental, e estivemos a conversar num café, nem de propósito. Foi refrescante poder trocar impressões sobre a actualidade de Macau com alguém que não estivesse a cada dois minutos a olhar à volta, receando comprometer-se por estar a falar de factos, que por muito sensíveis que possam parecer, são do domínio público.
Sim, na minha mente e entre “a malta” tenho carta branca para dar largas à criatividade, e se quiser posso até compor um enredo que transportado para as páginas deste jornal me deixariam numa carga de trabalhos, mas pronto, “palavras leva-as o vento”, lá dizia o poeta. Ou depende, pois não foi para meu espanto que um destes dias vejo no canal público de televisão o responsável máximo da entidade a quem o cartório vai deixar de alugar o tal imóvel a “voar pelo infinito” neste universo do imaginário. Aposto que até passou despercebido a muita gente, mas isso é apenas porque já estamos vacinados, infelizmente. Nada contra a pessoa em questão, cuja idoneidade não ouso beliscar, quanto mais questionar, mas antes as palavras, sem falar do tom infantil de chantagem emocional, mais a atirar para o desespero. Entre a “má vontade” do Governo contra a instituição que representa, e um complô ao estilo da Revolução Cultural Maoista no sentido de “eliminar os símbolos portugueses em Macau”, acho que virei na saída errada daquela estrada para a Terra do Nunca e dei comigo a pensar: sim, foram razões de ordem económica, sejas elas quais forem.
O que está em causa, no fim de contas, nem é a importância histórica daquela instituição, o bem que faz ou deixa de fazer, ou se existe realmente “má vontade”, mas antes o facto da sua própria existência depender do arrendamento de um imóvel. Permitam-me que me atreva a fazer uma metáfora recorrendo à regra das relações biológicas: quando apenas uma das partes beneficia da sua relação com outra, deixa de ser mutualismo. Em Macau não chega sequer a ser irónico ver quem supostamente ajuda os necessitados no papel de necessitado, ou pior: à esmola. É apenas “típico”, e agora querem saber o que penso realmente? É triste olhar para quem teme ter os dias contados estrebuchar feito um frango de aviário durante o abate. Mas pronto, e depois? Quanto é que precisam? Não estou a falar do dinheiro, mas antes de tempo para esquecer que aquele lugar era assim e depois deixou de existir de todo? Pronto, fazer o quê? Menos beneficência, paciência.

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