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Robert DeNiro in Taxi Driver --- Image by © Steve Schapiro/Corbis

O Exmo. Sr. Secretário para a Segurança da RAEM (também conhecido entre os meios marginais por “manda-chuva da chibaria) veio manifestar a sua “preocupação” com o aumento dos casos de criminalidade violenta em Macau. Preocupação que manifestou em seu nome e das Forças de Segurança em geral, sugerindo que se trata de um problema a que convém dar alguma atenção, pois a inacção é comprovadamente mais eficaz em casos de aguaceiros ou neblina matinal – a criminalidade violenta não “passa” se a ignoramos. Mas lá estou eu outra vez a conjecturar recorrendo apenas ao senso comum, algo que em Macau é tão abundante como a neve em Julho. O problema é que esta “criminalidade violenta” a que o sr. Secretário se refere tem o senão de estar directa ou indirectamente ligada ao sector do jogo, e aí, alto e pára o baile, que com a tropa não se manga, e pouco importa que esteja aí a jorrar sangue e precise urgentemente de aceder hospital mais próximo – a vaca sagrada resolveu deitar-se na estrada, e só saímos daqui quando ela quiser.
Neste particular, entende-se por “criminalidade violenta” os crimes de sequestro, cárcere privado, e todos os demais afluentes desse grande rio que dá pelo nome de “agiotagem”. Fulano empresta um milhão a um pobre diabo que se deixou escravizar pelo vício do jogo, este promete devolver-lhe o quíntuplo dessa quantia “quando ganhar”, e depois é o que se sabe. Eu desconfio que estes malandrins tiram algum tipo de prazer mórbido desta neurótico empreitada. Quer dizer, é preciso ser idiota “muito acima dos cem por cento” para acreditar que este “investimento” virá a trazer o retorno inicialmente acordado entre as partes. Para mim isto é gente sádica, que faz do rapto, da tortura, da chantagem e do homicídio um fetiche, e cujo libido se alimenta dos prantos dos familiares das suas vítimas, a quem ceifam a vida com a mesma indiferença que um funcionário das finanças carimba uma declaração de rendimentos. É um mundo que não interessa mesmo nada conhecer.
Pois é, muito comovente, sim senhor, mas mexer neste vespeiro não se recomenda, e é mau para o negócio. E depois como ficava o combate a esse flagelo ainda maior que dá pelo nome de – e certifiquem-se de que não estão crianças por perto quando estiverem a ler isto – UBER! Compreendo e resigno-me caso o jornal opte por censurar esta obscenidade criminosa que acabei de digitar. Até porque não existe legislação que me autorize a escrever “UBER” num jornal diário, ou uma lei que permita a este publicá-la, portanto bem vistas as coisas, é possível que estejamos a incorrer de um ilícito criminal grave. Lembram-se da tal vaca sagrada mencionada mais acima neste texto, e da sua vontade soberana? Ah pois. Então é ilegal ou não? Como ficamos? Perguntem-lhe.
Só pode ser mesmo o Jackpot dos crimes, este de fornecimento de serviço de transporte de táxi sem licenciamento, olhando aos meios humanos que as autoridades investem neste “combate”. Os “mas” é que são de perder a conta, a contar pela própria atribuição de competências; se a UBER está a cometer um crime económico, não caberá antes aos Serviços de Economia determinar a legalidade ou a falta dela, e fazer a respectiva fiscalização? E se realmente se trata aqui de um ilícito criminal “de chapa”, que tal chamar um carro da UBER, confirmar com o próprio motorista que se trata dessa companhia, e depois é só engavetar o biltre, que havia acabado de confessar o seu hediondo crime naquele momento. Dá para imaginar os meios logísticos empregues pelas autoridades para que tenham identificado 286 (!) casos de “transporte ilegal” em dez meses? Suspeito que estes números podem ficar aquém do número de taxistas autuados nos últimos seis ou sete anos. Enquanto no restante mundo civilizado se apanham “Pokemons”, aqui em Macau o entretenimento da polícia é o “UBERMÓN, GO!”.
E agora circulam rumores de que a UBER poderá cessar as suas operações em Macau já a partir do próximo mês, pois os mais de dez milhões de patacas dispendidos em multas não são propriamente um estímulo ao investimento (esta “curiosidade” fez manchete na edição de segunda-feira no Diário de Notícias, pasme-se!). E nunca em circunstância alguma a companhia em questão se propôs a substituir o serviço de táxis, ou se apresentou como alternativa: era apenas “mais um serviço”, como existem outros de transporte privado para além dos táxis.
Assim como estamos, o melhor mesmo é deixar andar a carroça, e pouco importa que um burro esteja cego, outro manco, e outro ainda especialmente inactivo já há alguns dias, e aquele afluxo de moscas à sua volta muito maior que as habituais duas ou três não auguram nada de bom. Até imagino como seria um encontro entre um agente da autoridade e um “criminoso violento”.

– O meu amigo está aqui para à espera de alguém? E de quem, pode-se saber?
– Concerteza, sr. agente. Estou à espera que uma das minhas tipas me venha entregar a massa que angariou hoje no “ponto”, para emprestar a um pobre pateta viciado na jogatina, com juros de 10 000%.
– Ai sim, mas não está à espera de nenhuma viatura com a aplicação da UBER…ou não opera você próprio com recurso a essa aplicação, pois não?
– Eu? Na. A minha área tem mais a ver com a usura, o sequestro, a extorsão, chantagem, tráfico de estupefacientes. Olhe, trafico pessoas também, quando calha.
– Sim senhor, um empresário e pêras! Não o atrapalho mais, e desculpe o incómodo de lhe ter feito perder o seu tempo – tempo é dinheiro. Mas já agora, como bom cidadão que é, fique de olho nesses tipos da UBER. Não vão eles querer levar ao aeroporto alguém que esteja prestes a perder o avião por não conseguir encontrar um táxi. A lei é para se cumprir, ora. E a não-lei…depende.

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