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Hesíodo era pastor e rapsodo (não tem nada a ver com rap) e recitava poemas de Homero. Saber acerca do seu nascimento, só isso dava um romance. Pois a data em que viveu tem vindo a alterar-se ao longo dos séculos. Hoje é comummente aceite que Hesíodo é posterior a Homero, mas ao tempo de Platão, por exemplo, Hesíodo era considerado como anterior a Homero. Se pensarmos acerca disso, o facto de não haver muitos registos, de as comunicações serem muito precárias, e de a Teogonia mostrar a genealogia dos deuses, não parecerá assim tão estranho. Pois seria fácil de pensar que a Teogonia era a base do conhecimento de Homero para escrever as suas obras. Por outro lado, Hesíodo, em Os Trabalhos e os Dias, reflecte a vida do campo, a vida do camponês e do proprietário rural, ao invés dos valores da nobreza e da guerra. Hesíodo é também um poeta de um profundo pessimismo, mostrando no seu poema Os Trabalhos e os Dias uma humanidade decadente e corrupta, bastante parecida com a dos nossos dias. Logo nos versos 25-26, podemos ler o seguinte: “O oleiro irrita-se com o oleiro, o carpinteiro com o carpinteiro; o mendigo inveja o mendigo, o poeta o poeta.”
Segundo o próprio Hesíodo, no início da Teogonia, a responsabilidade de ter passado de rapsodo a poeta deve-se a o facto de um dia ter encontrado as musas no monte Hélicon, que lhe insuflaram o talento de compor os seus próprios poemas. Contrariamente a Homero, e pela primeira vez na escrita do Ocidente, estamos diante de um poeta que fala em seu próprio nome, da sua própria história. Não só neste início da Teogonia, mas principalmente em Os Trabalhos e os Dias. Com a morte do pai, ele e o seu irmão Perses herdam a sua fortuna, que é dividida em maior favor de Perses, com a ajuda de juízes corruptos. Mais tarde, e novamente através da corrupção, Perses tenta retirar a parte da fortuna de Hesíodo. E é com este caso pessoal que ele começa a sua grande obra, Os Trabalhos e os Dias. Pela primeira vez, a poesia não se centra somente na repetição, recriação ou criação de mitos, mas passa também a ser veículo de vivências pessoais. E, além das vivências pessoais, que percorrem todo o poema, tem também a descrição da vida do campo. Há uma enorme ambiguidade no modo como o trabalho é cantado neste poema. Se por um lado há uma glorificação do trabalho, pela sua ligação estreita ao conceito de justiça, por outro lado não podemos falar de uma ética do mesmo. Pois o trabalho é uma necessidade, e tudo o que é necessário não tem valor. Valor e necessidade são antagónicos. Valor é algo a que atribuímos importância independentemente da sua necessidade. A amizade é um valor, pois podemos viver sem amizade; a honestidade é um valor, pois podemos viver sem ela; mas comer não é um valor, é uma necessidade; assim como o trabalho, para aqueles que não têm fortuna ou não são políticos de carreira. Por outro lado, o termo erga, trabalho, não tem hoje o mesmo sentido que tinha nesta altura na Grécia. Erga quer dizer trabalho agrícola, e não um outro tipo de trabalho. Mas há, e isto, sim, é de extrema importância, uma ligação estreita e profunda entre os conceitos de trabalho e de justiça, em Os Trabalhos e os Dias. Hesíodo escreve: “frequentemente uma cidade inteira sofre por causa dos crimes de um só homem, qualquer que seja: e em respostas às maldades deste, Zeus manda fome e peste, ‘e o povo perece’.” A honestidade está intrinsecamente ligada ao trabalho.
Há também neste poema aquilo que poderíamos considerar a primeira consciência de composição poética, no sentido formal. No final do mito de Prometeu, e de modo a conectar o mito de As Cinco Idades do Mundo, sem que se perca o sentido de exortação a Perses, ele tem de usar um artifício. Escreve Hesíodo, no final do mito de Prometeu: “Se quiseres, contar-te-ei um segunda história até ao fim. Acolhe-a, porém, no teu coração.” Temos, sem quaisquer dúvidas, um poeta diferente de Homero, um poeta que se coloca a si mesmo no centro da narrativa, para além de permanecer também na tradição dos deuses helénicos. Como escreve Alessandro Rolim de Moura, na introdução à edição da sua tradução de Os Trabalhos e os Dias: “Poderíamos talvez ver nessa diferença entre a postura homérica e essa guinada “autobiográfica” de Hesíodo o sinal de uma evolução, da passagem de um estágio em que o poeta se vê como um discreto intermediário das Musas para uma poética em que o artista está mais consciente de seus meios e apresenta uma individualidade mais delimitada.” (p. 19) Se é a vida do poeta que é relatada ou se trata de uma invenção, quando no poema o autor se refere a si próprio, é o que menos importa. E, como uma vez mais escreve Rolim de Moura “a pergunta sobre o estatuto verídico ou não desse “eu” hesiódico não é propriamente a questão mais interessante. Tem maior relevância a constatação de que o poeta se preocupa em apresentar uma individualidade assim definida e a investigação de como essa vida é imaginada e representada poeticamente.” (21)
Segundo Hesíodo, em Os Trabalhos e os Dias, foi dado a Prometeu e a seu irmão Epimeteu, que eram titãs e não homens, a tarefa de criar o homem e todos os outros animais. Epimeteu encarregou-se da obra e Prometeu encarregou-se de supervisioná-la. Epimeteu quer dizer “aquele que pensa depois”, assim como Prometeu “aquele que pensa antes”; isto é, Prometeu não pensa nas consequências dos seus actos e Epimeteu não pensa que algo de mal lhe possa acontecer. No poema de Hesíodo, Epimeteu distribui atributos por cada animal: coragem, força, rapidez, sagacidade… asas a um, garras a outro, uma carapaça protegendo um outro ainda. E, quando chegou a vez do homem, formou-o do barro. Mas como já tinha gasto todos os atributos disponíveis, com os outros animais, pediu ajuda a Prometeu. Este, que não tinha como ajudar o irmão, roubou o fogo aos deuses e deu-o aos homens. Como castigo, Zeus ordenou a Hefeto que acorrentasse Prometeu no cume do Monte Cáucaso, onde todos os dias uma ave lhe comia o fígado, que também todos os dias se regenerava. Este castigo deveria durar trinta mil anos. Para todos os outros homens, o castigo foi Pandora. Pandora (pan dôran) quer dizer “um presente de todos”; presente esse que se vai revelar envenenado. Prometeu tinha já avisado o seu irmão para não aceitar nunca presentes dos deuses, mas ele, estando sozinho e nunca desconfiando de mal algum, esqueceu a advertência do irmão e introduziu a mulher no mundo. Sim, porque Pandora é a primeira mulher na mitologia grega, criada por Hefesto e Atena, auxiliados pelos outros deuses, sob as ordens de Zeus. Cada um dos deuses deu-lhe uma qualidade. Recebeu de um a graça, de outro a beleza, de outros a persuasão, a inteligência, a paciência, a ternura, a habilidade na dança e nos trabalhos manuais. Hermes pôs ainda, no seu coração, a traição e a mentira. Estamos diante de uma equivalente da Eva bíblica. Mas enquanto a Eva é um presente bom ao homem (ainda que depois seja responsável pela queda da humanidade), Pandora é desde logo um mal que Zeus quis infligir na humanidade. Foi oferecida como presente a Epimeteu, que esquecendo as advertências de seu irmão Prometeu, a aceitou e desposou. Epimeteu tinha em seu poder uma caixa que os deuses lhe tinham dado, muito tempo antes, e que continha todos os males que existiam. Avisou a mulher que não a abrisse, mas Pandora não resistiu à curiosidade. Ao abrir a caixa, Pandora deixou que todos os males escapassem para o mundo, fazendo com que a humanidade passasse a ser afligida por eles. O mito de Prometeu explica a criação do homem, a aplicação da justiça divina e revela a relação com o trabalho.
Para além de se tratar de um mito da origem, de um génesis, é também um poema ético, que liga ao próprio tema do trabalho humano, e que não devemos aceitar presentes sem ter a certeza de os merecermos. A vida custa. Custa trabalho. Os deuses, e os outros, não nos dão nada, tudo tem de ser conquistado pelo trabalho. Cortar caminho, leva-nos seguramente a males maiores, como o exemplo da caixa de Pandora. Hesíodo é extremamente pessimista e isso é visível em vários versos, mas principalmente na própria concepção do poema Os Trabalhos e os Dias.
Na parte final do poema das “Cinco Idades”, também em Os Trabalhos e os Dias, a vida humana é pintada com cores negras, e é impressionante a actualidade dos seus versos, impressionante e aterrador, pois os versos mostra-nos claramente o quão pouco ou nada mudámos. Avançámos muito na tecnologia, mas quase nada no tocante ao que liga um humano ao outro ou a si próprio. O mito de “As Cinco Idades” divide-se em Idade do Ouro, Idade da Prata, Idade do Bronze, Idade dos Heróis e Semi-deuses, e Idade do Ferro (a Idade actual). Na primeira Idade os homens viviam à semelhança dos deuses, uma sequência constante de prazeres, pois desconheciam o cansaço, a doença e a dor. Depois de muitas anos de felicidade, a morte chegava como um suave adormecer. Esta idade foi totalmente destruída pelos erros do titã Cronos. Na segunda Idade, os homens eram todos fracos e tolos, incapazes de administrar as suas próprias vidas e incapazes de se ajudarem uns aos outros. Levavam anos para iniciar a vida adulta e não faziam distinção entre o bem e o mal. As suas vidas eram repletas de dor e de tristeza. Não se amavam uns aos outros e eram completamente indispostos para o trabalho. Roubavam-se e matavam-se uns aos outros. E, como não se submetiam aos deus, Zeus resolveu matá-los a todos. Seguiu-se então a Idade do Bronze, onde os homens eram altos e fortes, guerreiros destemidos, moldados em bronze, tal como as suas armas. Tudo era de bronze, nesta Idade. Não se cultivava a terra, viviam da caça e da colecta. Por fim, tornaram-se arrogantes e vaidosos e tentaram tomar o monte Olimpo, levando Zeus a matá-los a todos. A quarta Idade veio ao mundo com Hércules (Herácles, na nomenclatura grega), Teseu, Orfeu, Jasão, Aquiles, Agamémnon e todo o exército de heróis da mitologia grega. Os actos corajosos destes deu nome a esta idade, a Idade dos Heróis. Estes eram mais justos e mais nobres do que os das Idades anteriores. Recebiam frequentemente a visita dos deuses do Olimpo, partilhando com eles as alegrias e as tristezas. Muitos dos heróis eram filhos de algum deus, que os protegia. Grandes cidades floresceram nesta Idade: Atenas, Micenas, Esparta, Creta, Corinto e Maratona. Mas a Idade dos Heróis foi destruída. Muitos morreram as Sete Portas de Tebas, combatendo pelas riquezas do rei Édipo, e os outros morreram mais tarde, na luta que se travou durante dez anos nos muros de Tróia. Esta foi a geração ou a Idade representativa dos valores do homem helénico. Como final da idade dos Heróis, chega a Idade do Ferro. Zeus gerou da terra a abundante geração de ferro, que ainda hoje habita a terra. A vida é difícil para estes homens, pois têm de trabalhar para sobreviver, enfrentando diariamente problemas e provas. Os deuses também não lhes demonstra amor, já que se retiraram de vez para o Olimpo. Distribuíram algumas alegrias, mas o mal sempre excede o bem e obscurece a vida dos homens. Nesta Idade, os homens vivem com a lembrança da Idade que os precedeu, pois esta deixou uma rica herança cultural a ser seguida e, por isso mesmo, as suas histórias foram contadas pelos poetas.
Depois desta passagem pelos mitos do poema, regressemos ao trabalho, que é o que nos cabe, a todos nós, nesta Idade. Se honestidade está intrinsecamente ligada ao trabalho, como vimos anteriormente, o trabalho está intimamente ligado ao conceito de justiça. Este poema é também, como o próprio título parece anunciar, e não engana, um elogio do trabalho. Veja-se os versos de 308 a 311: “É com o trabalho que os homens se tornam ricos em rebanhos e em bens; / e ao trabalhar tornas-te preferido dos imortais e dos mortais, pois todos desprezam o ócio. / O trabalho não é nenhuma desonra, desonra é não trabalhar.” Podemos ver como estamos longe de Homero. Quase parecem palavras saídas da Bíblia. Mas o que está aqui em causa, em Hesíodo e na necessidade do trabalho, é a própria condição humana. O humano, nesta nossa quinta idade, foi condenado ao trabalho, e tem de assumir a sua pena de modo a cumprir os desígnios dos deuses. Estes deram-nos o trabalho como modo de nunca esquecermos a diferença enorme que nos separa. É preciso não esquecer que o trabalho era considerado uma actividade menor na cultura helénica arcaica, visto a maioria das tarefas serem asseguradas pelos escravos. Contrariamente a Homero, que glorifica o combate, ou a Píndaro, que glorifica a vitória, Hesíodo glorifica o trabalho. E isto, só por si, é uma revolução tremenda na Hélade. Aquilo que é comum a Homero e Hesíodo, é a não separação da ética da estética. Um poema tem uma carga ética. Um poema tem de ser formativo, exemplar. Mas os protagonistas de Os Trabalhos e os Dias são homens que precisam do trabalho diário para viver. Eles vivem da terra e dependem do esforço dos próprios braços para que a terra produza. Não podem contar com a ajuda de muitos escravos ou serviçais E este retrato contrasta profundamente com o que vemos nos poemas homéricos. Lá o foco principal da atenção são nobres guerreiros cuja relação com a dureza do trabalho agrícola está muito mediada. Certamente as comparações épicas trazem por vezes cenas de trabalho no campo, mas isso parece ocorrer numa realidade paralela à da Guerra de Tróia e das aventuras de Ulisses. Hesíodo expressa a mundividência de uma classe social diferente daquela cantada em Homero. Mas não se veja aqui uma espécie de luta de classes avant la lettre, pois nada mais errado pensar isso. Se por um lado, Hesíodo glorifica o trabalho e a vida do campo, por outro não desdenha da nobreza dos heróis, bem pelo contrário. Hesíodo apenas acrescenta um outro lado do mundo, um outro lado da vida, que estava afastado dos poemas homéricos e que, segundo ele, descreve melhor esta nossa era, a dele e a nossa. Nos versos 366-67, podemos inclusivamente ler algo que tem a ver muito com o nosso Portugal de hoje: aconselhar as pessoas a ter apenas um filho. No fundo, poderíamos dizer que com Hesíodo já não há heróis. Não há heróis antigos, os heróis são as pessoas que esgravatam na terra à procura de dias, de dias de vida. Desde o dealbar da poesia, que se sabe que não é o tema que faz a grande poesia, mas o talento com que se expressa esse tema. O que realmente está em causa na grande poesia, é que não há forma de distinguir o real do ficcional. A poesia é, na sua génese, mito, isto é, uma narrativa sobre as possibilidades do humano; e não uma narrativa sobre os factos humanos. É precisamente isso que Aristóteles, na sua Póetica, nos diz, quando escreve: “A história escreve acerca do que acontece, a poesia acerca do que poderia acontecer.” O poeta sente o tempo que é como se não houvesse outro, fazendo dele um para sempre, que é o que caracteriza a grande poesia. E não há para sempre estritamente real. O para sempre da poesia tem de ter um pé no mito, um pé bem fincado no que poderia ser.
Há que salientar a importância do conceito de justiça, para Hesíodo. No poema, quase no final, ele deixa claro que é através da justiça e não da força, que o humano pode prosperar em sociedade. A coragem é a coragem de ser justo e não a de vergar um outro. Não estou a dizer que não haja justiça em Homero, mas seguramente não desta forma explícita e valorativa que aparece em Hesíodo. Esta noção de justiça, como a grande diferença que nos separa dos animais, será o tom que irá reger grande parte do pensamento grego. E, por isso mesmo, a sabedoria também tem uma importância enorme em Hesíodo, aquilo que poderíamos chamar de trabalho intelectual. No início da parte seguinte de Os Trabalhos e os Dias, onde aparece uma ética do trabalho, ele escreve: “Também é nobre aquele que é convencido por quem diz boas coisas; / mas quem não recebe no seu espírito esses ensinamentos, / quer seja por si mesmo, quer seja ao ouvir o outro, esse homem é um inútil.” (295-97) O resto do poema desenvolve-se em tom de máximas para a família, o agricultor, o navegador, as relações sócias e a religião, intercalando sempre os conselhos pragmáticos com os práticos, o saber fazer com saber; por fim, faz uma espécie de fenomenologia dos dias, onde atribui a importância e a diferença de cada um dia do mês. Há um dia para cada coisa e ligado a uma razão específica; parte destas razões são mitos, parte são fruto da observação, do empirismo.
Fiquemos com este verso, quase no final do poema de Os trabalhos e os Dias: O dia, por vezes é mãe, por vezes madrasta.

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José Saramago atribuiu-lhe o primeiro prémio literário com o seu nome. Viveu na Ásia, no Médio Oriente e no Brasil. De escritor-promessa a persona non grata no meio literário, Paulo José Miranda, licenciado em Filosofia, é poeta, escritor e dramaturgo, e tem obra publicada.

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