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Oremorso. A culpa. O arrependimento. Aquilo que deveria ter feito e não fiz. Aquilo que deveria ter dito e não disse. Aquilo que não deveria ter feito e fiz. Aquilo que não deveria ter dito e disse. O remorso. A culpa. O arrependimento. Afogados em álcool. Num outro bar. Porque já não pode ser o mesmo. Porque não posso encontrar o acidente da outra noite. Porque esse acidente me afunda mais neste estado sem paz. Neste bar que parece perdido no tempo. Num tempo qualquer que não o nosso. Neste bar que me recorda o bar onde senti que te tinha perdido. Que nos tínhamos perdido. E que apropriadas as palavras da música que se ouvia ao fundo. E que apropriada a voz em lamento. Um lamento lamechas. E embalava o silêncio de nós. Naquele momento no qual não tínhamos mais nada para dizer.

“Where are those happy days, they seem so hard to find / I tried to reach for you, but you have closed your mind / Whatever happened to our love? / I wish I understood / It used to be so nice, it used to be so good / So when you near me, darling can’t you hear me? / S. O. S. / The love you gave me, nothing else can save me / S. O. S. / When you’re gone / How can I even try to go on? / When you’re gone / Though I try how can I carry on?…”1

Devia haver mais que uma palavra para o amor. O amor que mata. O amor que redime. O amor que acredita na culpa e o amor que salva a respiração. O que fazemos nós pelo amor? O que podemos fazer? Que extremos podemos chegar? Morrer por amor? Como Romeu e Julieta? E como Romeu ser enganado pelas circunstâncias e forçar a tragédia sobre nós? Aqui permanecerei eu. Aqui onde a minha carne não é mais que um capa desesperada. Aqui onde o céu desapareceu. Aqui onde o amor se perdeu. Aqui onde não devemos sentir o remorso. A culpa. O arrependimento. Aqui onde nem devemos sentir. Onde podemos atingir o insano. A demência. Porque não sentir é em si uma espécie de demência. Mas olham para nós como se fossemos nós os que não são sãos. E talvez seja isso mesmo afinal. Porque o amor pertence aos que não são puros. Aos não imaculados. E não ser puro é ser autêntico. E não ser puro é ser verdadeiro. Porque o amor pertence-nos a nós que temos dúvidas. Que matamos e morremos por amor.

E a triste, triste face da minha juventude. Mas porque pareceu que era esta a única possibilidade? Porque me sentia sozinho? E se sinto solidão quando estou só quer isso dizer que sou à partida uma má companhia? E que a minha solidão te atingiu? Te consumiu. Chegou até ti como um vírus? E como sobreviver a isto? Erros antigos acabam por vezes por criar sombras enormes dentro de nós. E como viver com essas sombras? Através da mentira? E uma mentira puxa a outra. E nenhuma curiosidade acerca disso. E o que é a curiosidade sobre o outro realmente? Puxar aqui e ali pontas de segredos? Procurar os pontos fracos e fortes? As decepções? As ilusões? Ou o completo reverso? E quando a curiosidade atinge o seu fim o que resta? De novo a decepção? E não há maior decepção que a decepção do eu. Quando te disse que estava decepcionado deveria ter dito que estava decepcionado comigo. O que eu queria dizer era que estava triste. Deveria ter tido a coragem. E deixei o erro de julgamento cobrir tudo o resto. E tudo aquilo que nunca fui sensível. Que assumi como oferecido. Que não duvidei. Porque tu és a mais bonita mulher do mundo. E não importa se nunca notei quando punhas batom ou se te vestias de propósito para mim. O que importa é tudo aquilo que nós esperámos de nós. O que tu esperaste de mim. O que eu esperei de ti. O que eu nunca esperei de mim.

Porque quando o amor encontra aqueles que não são puros. Os não perfeitos. Oferece-lhes uma via. Mas depois vem o medo. O medo é que nos mata. E a pessoa de quem temos mais medo é aquela a quem depositámos toda a nossa confiança. E temos medo de nós. Daquilo que somos ou não somos capazes de fazer. E o medo cresce até se tornar uma doença. A doença de ter medo de perder o outro e deixar de sermos nós. E desse modo acabar mesmo por perder o outro. O outro e nós. E não interessa o sexo. Sexo é apenas desejo. Uma comichão que precisa de ser coçada. Um arranhão que tem que ser dado. Uma dentada solta. Não interessa. Não resolve. Mas o amor. O amor é algo incompreensível. Que não se justifica. Que não se conhece. Que surpreende. É por isso que o medo é tão forte a combater o amor. Porque no fundo estamos todos quebrados por dentro. Com a alma em cacos. Que não conseguimos mais juntar. E é aí deixamos de ver o outro. Porque não nos conseguimos mais ver a nós próprios. E nesse momento não há ninguém que tenha a culpa. E não devemos forçar a culpa sobre nós próprios. O arrependimento. O remorso.

“…You seem so far away though you are standing near / You made me feel alive, but something died I fear / I really tried to make it out / I wish I understood / What happened to our love, it used to be so good / So when you near me darling can’t you hear me? / S. O. S. / The love you gave me, nothing else can save me / S. O. S. / When you’re gone / How can I even try to go on? / When you’re gone / Though I try how can I carry on?”

E as tuas palavras que me ecoam na cabeça. Acusações. Acusações que não eram acusações mas sim gritos desesperados de socorro. De compreensão. E as tuas palavras que me chegaram como setas. E eu surdo. E dizias que eu olhava para ti e assumia coisas que não eram verdade. Que toda a gente olha para ti da mesma forma. E que eu afinal também. Que tinhas vindo para esta terra tão cheia de esperança. Tão agradecida por deixar para trás um passado tão mau. E que eu, de toda a gente, devia conseguir ver o que as pessoas nesta terra não conseguem discernir. Que não percebem o modo como nos tratam. Mas eu deveria ser diferente. Que eu via a solidão. Via o isolamento. Via o modo como olham para nó. Eles olham para nós como se fossemos monstros. Porque eu, de toda a gente, deveria saber isso tão bem como tu. Porque, apesar de aceite numa qualquer comunidade de hipotéticos escolhidos, e independentemente de ser de cá, tenho um tom de pele diferente. Porque tenho raízes estrangeiras. E que eu deveria perceber o que é não ter terra. Não ter família. Ter sido abandonada ainda bebé. E o quanto custa tentar tanto fazer parte de alguma coisa aqui. Encontrar um espaço. O quanto custa e que custa tanto que por vezes se perde a respiração. O quão difícil é apenas ser. Apenas ser. Porque nem isso parece ser possível. As tuas palavras e o remorso. A culpa. O arrependimento.

“When you’re gone / How can I even try to go on? / When you’re gone / Though I try how can I carry on?”

1. Abba – S.O.S.

Nota: Por lapso não foi referido no episódio anterior (21) que a citação pertence a “Os Hinos à Noite” de Novalis. Pelo facto o autor pede as suas desculpas aos leitores.

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